terça-feira, 18 de junho de 2013

Breve conto de ficção científica



Numa galáxia não muito distante, depois de um concurso transparente e sem palhaçadas, o planeta zombie ganhou, ou antes, ofereceu-se ao sacrifício, com alguma dor mas fez-se anfitrião à experiência galaxiar.

Os outros estavam a anos- luz de desenvolvimento e não queriam estragar-se. Como ninguém quer receber como convidados energúmenos que nos estraguem os sofás, façam hortas na banheira e bebam o nosso melhor vinho, sem o apreciar.

Passou a ser a casa onde uma espécie iria ser deixada para aprender a ser gente. A conviver uns com os outros e se fossem capazes, quem sabe, criar um mundo novo. Bastava ser, simplesmente.
Sem atropelos. Ou roubarem-se parras, maçãs, ou morder-se.

Humm… digo eu enquanto penso no big bang…e no que originou o filme que nos calhou. 
Aposto que pediram ao Woody Allen um alienígena evoluído (pelo menos fisicamente parece um bocado, porque é maior que os tradicionais homens verdes de 30 cm), para fazer o favor de escrever e dirigir o guião.
Tamanho é o non sense e em simultâneo a angústia, a depressão, a confusão, a ambiguidade e a quadripolaridade sem acompanhamento médico, que reina no planeta zombie.
Só ele, o W.A. sabe tirar rosas púrpuras do Cairo, ou matar por hipnose.

No sítio que me calhou no meio desta raça, muitos diálogos se constroem e desenvolvem à volta de humm´s passados entre os interlocutores. Vão e são devolvidos sem mais nada a não ser prolongados ou curtos humm´s. Neste guião ouvem-se muitos.

Isto é uma forma de desenvolvimento humano. Nada mais a acrescentar quando está tudo dito. Basta um hummm para nos entendermos.

É um profundo humm que lanço, quando vejo, a irmandade não no Masterchef ou no Big brother dos reality show´s, mas à minha frente a agir na vida mais real que possa imaginar.

Nem sequer estamos numa quinta imaginária com porcos metaforicamente humanos a dar-nos lições de convivência democrática, seja lá o que isso for. Hummm isto é mesmo a vida real.

Tudo é normal enquanto for normal para todos. Só deixa de ser quando alguns começam a entender que é necessário passar a outro patamar de evolução. Foi assim com a História destes seres aos quais pertenço.

Do outro lado estão a observar-nos enquanto comem gelados e chocolates. Como eu faço quando vejo e me encanto com as fantasias do Woody Allen.

Como já chegaram à conclusão que o melhor é adoptar a política de terra queimada ao planeta, agora apenas se divertem e assistem. Já nem devem fazer julgamentos. Adoptaram o pensamento de Bertolt Brecht:
-”que tempos são estes que temos que defender o óbvio?”

Por isso algures numa galáxia com o olho em cima de nós, os chocolates e os gelados continuam a circular com um só um julgamento feito há algum tempo:
-estes zombies são indefensáveis. Repetem a mesma merda vezes sem conta, inventam religiões e deuses para se confessarem e justificarem mas continuam a fazer o mesmo.
Demos-lhes a imaginação e o gene criativo e eles até inventam, mas voltam aos mesmos erros básicos.

São como bébés que não passam da fase de gatinhar e não conseguem livrar-se das fraldas.
Por mais que os pais o ajudem e ensinem a dar passitos (perdoem-me os sensíveis por usar esta palavra que faz lembrar o outro…).
Ou por mais que lhes estendam o penico.
O bébé insiste em gatinhar e fazer cócó no chão da cozinha. E ainda mexe com os dedos.

Eles, de olho em nós, encolhem os ombros e continuam nos gelados e nos chocolates. Ouvi dizer que não possuem o gene de engordar…hum…

Alguns adormecidos porque até são felizes com os seus orixás, musicas, axês, carnavais, xôpes e líderes agigantam-se e sacodem-se.
Levantam poeira e tiram o pé do chão (obrigada rainhas do samba pelas expressões) para que o normal deixe de o ser.

Até outros adormecidos com história de sociedade fechada com a sua religião, pecados e caras tapadas, onde o pai natal não encontra chaminés, quebram a regra do normal e querem deixar de ser normalmente fechada.
E passar a ser livre. Para escolher o que for melhor.

E por aí vai um pouco pelos cantos redondos do planeta.

Hummm hummm,

Não é obvia a beleza desta evolução? Por um momento, lá onde o olho nos observa, o suplemento de chocolates e gelados foi suspenso e alguém gritou:

-“há movimentações anormais, parece que qualquer coisa de diferente está a ser agitado”. 
E de repente a sala de observação da nave principal, ficou cheia de curiosos mais ou menos descrentes…
E ouviu-se hummm, hummm, alguns sim, agitam-se, levantam-se e saem dos sofás Ikea, mas de repente chega  a desilusão…

Humm, só aquele grupo de irredutíveis cansados de 8 séculos de história fazem como nós…observam e dão vivas pelos seus irmãos…mas não se agigantam.
Nem na própria família são capazes de se entender. Ou defender. Ou estender a mão. Ou assinar petições com mais de 25 artistas…Humm

As marjorettes entraram na nave principal carregadas de chocolates e gelados enquanto se faz zoom in do rectângulo. O momento de euforia tinha-se esfumado.

Hummm, quem sabe se os cansados, foram obrigados a estar do outro lado da lente, a aguardar instruções do realizador para entrar em cena.
A minha esperança renasce. Clac clac. Tic tac tic tac.
A qualquer momento pode haver acção. Ou não…


Até novas mudanças, na nave, circulam livremente gelados e chocolates.