terça-feira, 23 de julho de 2013

Para deixarmos obra como epitáfio

“Conheço muitos que não puderam quando deviam. 
Porque não quiseram quando podiam, Rabelais”

Numa pausa para um cigarro, ela, a escrava, fez uma reflexão sobre ética e moral e um dia as regras do jogo mudaram... 

Eu, hoje escrava de outros donos, faço também uma pausa, para um cigarro, com mais químicos, mas a reflectir sobre os costumes, comportamentos e ética, ontem como hoje, tão semelhantes na sua falta.

Na esperança que um dia mudem também as regras do jogo.

Deixámos de ter apenas uma visão sobre a vida cartesiana/newtoniana/materialista, assente no princípio de que o que não podemos ver nem tocar, não existe.


A terra já não é mais plana. Gates ou Jobs não foram queimados em fogueiras quando apresentaram ideias inovadoras e revolucionárias.

Na parábola da alegoria da caverna de Platão, as imagens na parede eram a representação do mundo fora da mesma.

Hoje importa sair da caverna, libertando a mente, desconstruindo e descodificando o matrix que nos é apresentado, pelos interesses em criar estereótipos e em levar-nos à cegueira.

Sobretudo à cegueira do pensamento e da reflexão. Importa passar do papel passivo e de simples recipientes de conteúdos, para agentes activos de reflexão e acção.

Nas palavras do sociólogo Manuel Castells, e perante a insignificância do que somos,

“A forma como pensamos determina o que fazemos”,
“A manipulação das mentes é muito mais eficaz do que a tortura dos corpos”,
Nos grupos, “os projectos individuais passam a ser projectos colectivos”,

Para deixarmos de vez a caverna, deixarmos de vez o modo adormecido, ou o modo avestruz em que nos encontramos globalmente, apesar das pequenas manifestações de rebelião, precisamos acompanhar o movimento ininterrupto da terra, não deixando de alimentar a reflexão sobre o que nos rodeia e, agir de acordo com a ética e a moral.

Não agir apenas como o reflexo do que nos é apresentado, mas do que cada um constrói para si, que sirva também os outros.
Acredito que nada do que temos nos pertence. Acredito que tudo nos é emprestado: o corpo que vestimos e que cumpre as obrigações da alma, o planeta que habitamos, os filhos que geramos.

Quando o jogo acabar seguimos todo o mesmo caminho para o lugar que todos desconhecemos.
Como diz o filósofo brasileiro Mário Cortella “não nascemos prontos”, vamo-nos construindo. Hoje somos a versão melhorada do que formos fazendo connosco. Alguns…

É na ética, que se articula com as demais ciências, que encontramos o espaço para reflectir e compreender essa realidade como indivíduos e como grupos, tendo por base o homem, no processo da sua construção, através das suas práticas, ou moral.

Este é o objecto da Ética, reflectir sobre as acções humanas e, os seus fundamentos ou normas universais que medeiam os comportamentos entre os homens.

Desta dialéctica nasce a lei que regula a liberdade individual no confronto com a colectiva, com o objectivo de estabelecer a segurança e o respeito pelo indivíduo. É objecto da ética reflectir sobre o objectivo da vida humana.

“Medi-mo-nos verdadeiramente com os demais quando agimos”, como bem lembrou Goethe, que é o que se designa por moral.

O objectivo da vida humana é ser feliz, é objecto da ética compreender quem é o homem, o que o faz feliz, quais os comportamentos que o levam à felicidade, tendo em conta que o ser humano é composto por emoções, sentimentos e conflitos entre os mesmos, daí a ética poder resultar num verdadeiro inferno de reflexão.

Desta forma, reflectir, compreender, perceber o homem na sua realidade, interpretá-la e problematizá-la, o objecto da ética, é também mediar os conflitos.

A ética não distingue épocas históricas, nem momentos. É simplesmente aquela que é, prima por aquilo que deve ser o princípio do viver em comunhão em qualquer época ou circunstância.
Ou se é ético ou não se é. Procurando levar cada indivíduo a, respeitá-la, deixando-se guiar, inspirando-se e integrando os mesmos princípios.
Costume, é de onde deriva a palavra ethos, do grego, e êthos, vem de morada habitual.
Indica-nos simplesmente que as moradas onde residem os costumes, são sagrados e inquestionáveis, pertencentes a toda a humanidade como um só.

Na sociedade moderna os conflitos entre ética, moral e costumes, são cada vez mais, um sintoma da doença profunda em que o homem se encerrou. E dever-nos-ia obrigar a cada dia que passa, questionar a caverna onde vivemos.

Deixe-mo-nos em cada morada, com os ethos universais guiar pelos princípios éticos sagrados, com comportamentos morais que se pautem pelo princípio da harmonia e da felicidade, fim único da humanidade.

Para "deixarmos essa obra como epitáfio".

Mário Cortella sobre ética e moral no programa do Jô Soares
http://www.youtube.com/watch?v=LK91Ut7jJIM



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