quinta-feira, 15 de agosto de 2013

“O meu repouso é a batalha”

"À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo"

Estou numa relação muito complicada. Entre a realidade e a ficção.
Como no amor tantas vezes acontece, o dilema entre o coração e a razão, que invade as almas.
Como quando esquecemos que chorámos uma dor de amor se nos apaixonamos de novo.
Mas quando ele acontece, e “se apodera de uma alma, rica ou pobre, despe-nos do medo e da vergonha”.

Tal como o cavaleiro da triste figura, perco-me no mundo e também intuo que parti para ele quando a ele cheguei. 
E nele vou ficando sem saber se opto pela ficção se pela realidade.
Decidi despir-me do medo e da vergonha. Não tenho nada a perder. Fico-me com as palavras.

Já era tempo de escrever sobre o amor que lhes tenho, a elas palavras, o que me leva a ligá-las e a formar pensamentos sobre a ficção e a realidade. E me condenam a querer servi-las. E servir os livros.
E nelas depositar a minha imaginação. Longe da realidade, ou sobre ela.

"Letras são abelhas, palavras enxames, livros colmeias...
leitores flores, autores apicultores... 
e a literatura uma autêntica fábrica de mel" (MM Soriano)


Eu, flor ávida de enxames, pego-as para habitarem no meu coração e alimentarem-se do meu pólen.
Entre letras e palavras que leio, como as que construo, e, me transportam para o mundo da imaginação, fora de um mundo de realidades tão distante, tão distante, faço-me perder nos seus labirintos.

Um dia queria fugir da realidade e perder-me apenas nelas. Ficar apenas a conjuga-las em contos, em histórias, a transformá-las em pequenas sementes. E delas construir uma árvore na imaginação. Renascidas em livros reais.

Como o cavaleiro da triste figura tenho vindo a ser uma pequenina peregrina no mundo real. O meu Sancho é a minha imaginação.
Como os acordes musicais são as palavras da alma. As palavras são a minha expressão.

E neste vaguear pelo mundo, como D.Quixote e Sancho Pança, sei que prefiro ficar na liberdade da minha imaginação do que na prisão da minha realidade.

Mas encontro no caminho, homens na pior versão que “Deus fez às vezes ainda pior”, que perderam o contacto com a realidade do que é verdadeiramente a vida humana, para a ficção criada por uma muito pobre imaginação.

Por esta simples razão nos estamos a desmoronar como civilização. Presos em cativeiro. A perder a liberdade.

Sem fazer triste figura, pelo amor à liberdade continuarei a aventurar-me vida dentro e pelo mundo.
Das palavras, da ficção e da realidade.

Antes de perder o juízo, nua de medo e de vergonha continuarei a usar as palavras e, delas fazer a minha batalha, que é o meu repouso.


Todas as citações entre aspas são palavras de D.Quixote de la Mancha.